terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Top 10: 2009

01. Bastardos Inglórios, Quentin Tarantino

Difícil dizer algo inédito sobre o filme, mas o importante: é bom pra caralho. Simplesmente isso. Tarantino nos joga no seu próprio universo, onde tudo pode acontecer, e cria um filme de guerra à lá spaghetti ditado em tom irônico e grandioso, épico e brutal. E demonstra toda a sabedoria que o cara ganhou ao mexer com imagens, confrontando as espectativas de quem assiste e seu senso de humor peculiar a cada segundo do filme. Obra-prima, e um dos grandes filmes da década.

02. Um Homem Sério, Joel e Ethan Coen

Quando o filme termina, estamos tão tomados de perplexidade quanto os protagonistas. Ok, finalmente temos o dinheiro para pagar o colega traficante. Ok, nós resolvemos aceitar esse grande mistério que é a vida. Aceitar os subornos, aceitar os casamentos que não dão certo, passamos uma hora experimentando os efeitos da maconha, a culpa judaica e o sentimento de tudo dar errado. Basicamente, nós estamos prontos para olhar a vida sob uma nova perspectiva e aceitar de bom grado o que acontece. Mais eis que o céu prenuncia um furacão, eis que o telefone que toca o filme inteiro não toca para noticiar problemas, mas provavelmente uma má notícia. Grace Slick teria razão? Vai saber. O que eu sei é que os Coen acertaram de novo. Obra-prima que só perde O Homem Que Não Estava Lá e O Grande Lebowski.

03. A Fita Branca, Michael Haneke

Michael Haneke, a cada filme, segue implacavelmente destruidor e só melhorando o que já havia de bom nos seus filmes. Um grande estudo sobre a repressão, a revolta e os costumes. Tudo isso aliado a uma estética poderossima que nos faz revelar em meio a uma sutileza grotesca e brutal todos os absurdos e monstruosidades que mentes ditas "comuns" podem cometer assim, num estalar de dedos. É um cinema que exige do espectador. Não cumplicidade, mas atividade, pensamento, reflexão. A passividade individual só gera o que todos os seus filmes mostram: o lado doentio das pessoas.

04. Mother, Bong Joon-ho

O sul coreano não precisa provar pra mais ninguém que é um dos melhores diretores atuais com seu ritmo denso, piadinhas fora do lugar, brutalidade contrastante, voadoras nonsese e um senso dramático muito forte. O resultado disso é Mother, um estudo psicológico muito forte, muito triste e muito bonito do que uma mãe é capaz de fazer para proteger o seu filho. Mesmo que precise ir contra todo mundo, mesmo que precise ir contra a verdade. Longe de lições de moral, é uma história de afeto incondicional só passível de existir nesse tipo de relação. Nesse caso qualquer inverossimilhança foi por água abaixo quando o que está em questão é um tipo de ligação mais forte que qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.


05. Tudo Pode Dar Certo, Woody Allen

Woody não poderia ter escolhido roteiro melhor para voltar aos Estados Unidos. De quebra, chamou outro gênio da comédia para protagonizar a obra: Larry David, O CARA por trás de Seinfield. É o mesmo filme do Woody Allen de sempre (diferente da comédia jovem e sensual em Vicky Cristina Barcelona). Nem dá pra sentir falta do clássico judeu neurótico atuando, porque Larry David é outro: també judeu, também neurótico, e completamente angustiado, rabugento e mal-humorado. E o filme ainda traz uma discussão e uma filosofia muito coerente à toda obra de Woody: já que vivemos num universo sem deus e não há nada para julgar nossos atos, "o que vier é lucro" (a tradução mais adequada para o filme ao invés do ridículo título escolhido).

06. O Segredo dos Seus Olhos, Juan José Campanella

Campanella, com Ricardo Darín novamente, adentra o mundo do policial. E o resultado? Um filmaço, com um dos planos-sequência mais impressionantes da história do cinema. É cinemão popular, emotivo, cativante, carismático, tenso, bem-humorado, envolvente e todos os pré-requisitos para um filme desse filão que Campanella preenche tão bem, com tanto talento e criatividade, tirando da manga mais um filme de alto nível. Nem tem o que comentar, exceto que é incompreensível o fato de que Campanella não seja mais adorado pelo grande público.

07. Inimigos Públicos, Michael Mann

Belo olhar contemporâneo de Michael Mann sobre a década de 30. Apesar de se utilizar de alguns clichês e derrapar um pouco no relacionamento entre os personagens, é na estilização da violência que o filme brilha. O clímax no cinema prenuncia: a vida naquela época não era um filme glamouroso de gângster de Clark Gable. Pelo contrário, era bem feia e sangrenta. Dillinger contempla o filme em preto e branco como se encarasse um grande vazio - já que o ideal romântico se perdeu, destruído por Mann, Depp e Bale.

08. Onde Vivem Os Monstros, Spike Jonze

Jonze desgarrou-se de Charlie Kaufman e conseguiu fazer isso muito bem, com um fábula desencantada e com muito a dizer, sem lições de moral baratas e com um visual belíssimo. É uma fábula sobre o crescimento em que a solução dos problemas decorrentes dele e do contexto onde crescemos não está numa verdade absoluta que aparece no final da história, mas do que resolvemos fazer da vida antes que seja tarde.

09. Abraços Partidos, Pedro Almodóvar

Ok, Almodóvar é um especialista no drama-comédia-kitsch que sempre conta histórias absurdas dramáticas parecidas e é daqueles cinema de autor por si só, que está a serviço das preferências estéticas do diretor e ponto, sem discutir nada. Mas quem disse que isso é de todo ruim? Não com Penélope Cruz. Testando perucas, em uma comédia, assistindo Viagem à Itália do Rossellini e, mas é claro, de peitinhos de fora. Peitos da Penélope Cruz de fora sempre são um bom motivo para assistir qualquer coisa. Com um bom filme acompanhando, melhor ainda.

10. Se Beber, Não Case!, Todd Phillips

Proíbo de me encherem o saco por incluir no top. É engraçado pra cacete, com piadas inspiradas como há muito, muito tempo não se via, um roteiro pra lá de inusitado, uma direção com jogadas visuais criativas e alguns atores hilários. Se você prefere filmes de arte, a culpa é sua e o top é meu, beijosmeliga!

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Metidas de pau fast-food: Decepções

Sede de Sangue - Filme do grande Chan-Wook Park que começa muito bem, consegue justificar a utilização da podreira, do trash, da temática B, mas acaba se perdendo em meio a muitos psicologismos e devaneios de narrativa. Uma enxugada não faria mal nenhum.

Anticristo - Psicologia de boteco. E ruim. Mal dirigida, mal escrita, e as tão faladas cenas não impressionam em nada. Quem quer ver algo realmente estranhão/bizarro/doentio, deveria procurar A Vingança de Jeniffer, um exploitation ruim pra cacete e apelativo até o limite do mau gosto, mas que pelos menos não tenta ser filminho de arte com fotografia contrastante P&B, câmera lenta e dedicação ao Tarkovsky. Dá um tempo, Von Trier! Se tá com depressão, reúne a galera, vai pro bar de stripper e toma umas breja!

Doce Perfume - Uma cena boa no início. Um filme de fazer roncar alto no final. Minha primeira decepção com Andrzej Wajda, diretor que eu sempre considerei praticamente à prova de falhas.

Vício Frenético - Herzog fazendo uma comédia chata, desconstruindo um drama funcional, se perdendo em meio às viagens e não sabendo quando voltar, se esticando além da conta numa roda interminável (e intragável) de drogas e maluquices, e blá blá blá. Filme sem propósito ou rumo que dá nas bolas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Boogie Nights - Prazer Sem Limites

De uma foda bem dada entre Caminhos Perigosos, Robert Altman e pornografia, nasceu Boogie Nights. Apesar de ainda haver muito a amadurecer no filme, eu considero melhor, por exemplo, que Magnólia e Embriagado de Amor. Esbanjando vitalidade, crueza e grande timing fílmico, não deu outra. Juntando um elenco estelar só de gente fodona então, o filme tinha tudo pra botar o cara de vez na história do cinema. Mas a justiça tarda, mas não falha; ele fez Sangue Negro, pois.

domingo, 22 de novembro de 2009

O Expresso da Meia-Noite

Clássico com todas as letras que só mostra que Alan Parker é sinônimo de eficiência. Filme que nõ se deixa abater pelo classicismo exagerado, porém vigoroso e incendiário, do roteiro de Oliver Stone, tirando daí um testemunho audiovisual dolorido e sombrio, mas também belo e esperançoso, regado de belas interpretações e pequenos grandes momentos.

Os Aventureiros do Bairro Proibido

Obra-prima de Carpenter! Cópia de Indiana Jones é o cacete! Uma das experiências cinematográficas mais divertidas já feitas - exagerado, ilógico, espalhafatoso, frenético, hilário entre outros termos que não estão no gibi. Digo, sem medo algum, que é o melhor filme de aventura das últimas duas décadas - pau a pau com Os Caçadores da Arca Perdida. Quem não viu, que veja imediatamente!

Setembro

Uma injustiça rebaixarem e colocarem tantos deméritos no filme. "Woody Allen menor", "feito na pressa", "wannabe Bergman", coisas assim. É um filme pequeno sim, mas Allen é muito preciso na direção e arranca interpretações excelentes de quase todos os atores - combinando o vigor de Interiores com a maturidade de A Outra para discorrer sobre seus usuais temas-fetiche - como relações turbulentas, grandes traumas e ateísmo pessimista escancarado - e tirando daí um filme não tão grande quanto os grandes clássicos da sua carreira, mas com muita coisa para ver e dizer.

Curva do Destino

Um grande exemplo de como menos é mais. A curta duração, as poucas locações, o elenco minúsculo e o orçamento irrisório não impediram do filme virar um "clássico cult" do noir. Tudo graças a habilidade de Ulmer de fazer um filme ousado e corajoso para a época, com um roteiro que foge dos maniqueísmos fáceis e esbanja personalidade e poder de fogo, sem medo de pisar na moral do cada vez mais desancantado protagonista. Mas todos esses 'menos', também, acabaram atrapalhando um pouco filme - é um filme para se assistir de um fôlego só e acostumar-se logo ao frenesi do roteiro, mas fica a impressão de que tudo é apresentado, desenvolvido e solucionado rápido demais para uma digestão apropriada. Um verdadeiro soco na cara, no geral.

sábado, 21 de novembro de 2009

A Solidão de Uma Corrida Sem Fim

Junto a Tudo Começou No Sábado e Darling, a Que Amou Demais, A Solidão de Uma Corrida Sem Fim é um dos grandes luminares da new wave britânica - e que movimento, moças e rapazes. Se chamavam a rapaziada da Nova Hollywood de "movie bratz", dez anos antes esses inglês só poderiam ser mesmo os "angry brats", moleques furiosos. Nunca foi tão triste, revoltante e entediante ser um jovem da classe-média baixa, e o que Tony Richardson tira daí é uma obra frenética, carismática e com ainda muito a dizer.